ADRIANO ANTONIO PEREIRA
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Desolado

O mendigo, assim chamado,
que é ser humano do mesmo jeito,
tem peito de aço,
mas dorme ao relento.

Tem sangue de ferro,
mas não tem comida nem prato.
Com a vida amarga,
o suor amargo na roupa
e a destreza de um corpo errante,
segue:

com olhos de diamante
que brilham entristecidos e duros,
à procura de uma esperança
— se é que ela existe —
ou de um abraço social inexistente.

Ninguém sabe sobre o destino
que a vida traz a cada um
neste mundo,
nem a causa, a circunstância
ou uma escolha inesperada.

Mas todos sabem que tem
um lar coberto e aquecido,
um alimento que sustenta,
uma sociedade que abraça.

Mendigo de voz baixa — quase silente —,
mas de apelo gritante.
Recebe em troca uma prata
forçada e fria,
uma realidade fria.

Em meio a arrependimentos
e aprendizados,
nasce a vida,
morre o dia,
segue a sina,
só o mendigo fica.

Meus olhos desolados ficam.
E no fundo,
cada um de nós se esconde.
Cada um de nós.

— do livro O coração que carrega, 2016

 
imagem: pixabay | stocksnap
Adriano Antonio Pereira
Enviado por Adriano Antonio Pereira em 12/02/2019
Alterado em 16/03/2019
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